sábado, 7 de abril de 2012

PseudoScientific American Brasil

O ano era 1845. A Mecânica Quântica ainda não tinha sido inventada, homeopatia era moda e a prática da acupuntura era restrita à China. Em Nova Iorque, o inventor Rufus Porter fundou a Scientific American, "a palavra da indústria e da empresa, e o jornal das melhorias mecânicas e outras". De lá para cá a revista mudou de dono várias vezes, mas construiu, especialmente a partir de 1900, a reputação de traduzir para o público interessado os avanços da ciência e da tecnologia. E isso foi feito com extremo cuidado. A partir de 1948 os donos da revista decidiram que a maioria dos artigos deveria ser escrita pelas pessoas que fizeram o trabalho sobre o qual estão escrevendo, para que os artigos sobre novas descobertas aparecessem rapidamente, com maior exatidão e autoridade. Isso continua sendo feito até hoje. Ao longo de sua história, não menos que 140 ganhadores do prêmio Nobel escreveram para a revista, a maioria antes de receber o prêmio. Eu aprendi muito sobre ciência assinando a Scientific American na minha adolescência. Para dizer a verdade, o nível dos artigos fora da minha área de interesse era alto demais e eu tinha dificuldade para entendê-los. Mesmo assim eu tinha certeza da qualidade e do rigor de tudo o que era (é ainda) publicado ali. Hoje a Scientific American é publicada em 14 línguas e lida em 30 países. Em francês ela se chama Pour la Science. Em espanhol é Investigación y Ciencia. Aqui ela se chama Scientific American Brasil e é editada pela Duetto Editorial. Recebi com muita surpresa os comentários dos leitores Décio Legno e Solvat na postagem anterior deste blog. Segundo eles na página 17 da edição nº 119 (ano 10) da versão impressa da Scientific American Brasil, num artigo na seção "Saude" intitulado "A Eficiência Questionada da Homeopatia", de autoria de Nina Ximenes, havia a seguinte afirmação: "...a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados...". Comentarei essa pérola mais adiante. Eu estava muito ocupado nesses dias e não consegui comprar a revista para conferir. Achei que devia ser algum engano. A Scientific American não publicaria uma bobagem desse tamanho, no Brasil ou em qualquer lugar. Alguns dias depois o ótimo Never Asked Questions do impagável Roberto Takata (quem duvida leia um dos quase 65 mil tweets de sua lavra @rmtakata) apresentou uma resenha dos últimos fatos a respeito: Não somente o texto tinha sido publicado como causou furor no respeitadíssimo Science-Based Medicine e a editora chefe da Scientific American americana, Mariette DiChristina desautorizou publicamente o editor da Scientific American Brasil em seu Twitter.  

Podia piorar: dia 30/3 o editor da Scientific American Brasil, Ulisses Capozzoli publicou um texto no blog da revista chamado "Ciência e Falsa Ciência" no qual discute a recente decisão do Tribunal Federal da 1ª Região reservando aos médicos a prática da acupuntura no Brasil. No texto ele implicitamente afirma que a acupuntura tem efeitos terapêuticos. Os que como eu sempre afirmaram que espetar agulhas em pontos na pele ao longo de meridianos para corrigir o fluxo de Qi não tem base científica alguma são tratados como fundamentalistas limitados e limitantes. É como se a decisão do Tribunal mudasse a realidade e portanto estaríamos redondamente errados ao dizer que acupuntura não é ciência. Em todos os testes já feitos com algum rigor a acupuntura nunca apresentou resultado melhor que o placebo. Basta conferir na maior e mais reputada base de dados médicos do mundo, a Colaboração Cochrane. Ali há metaestudos sobre acupuntura aplicada a mais de 20 condições de saúde. O efeito em todas é comparável ao placebo. Portanto, nada impede que pessoas se submetam a tratamentos por acupuntura. No entanto, fico um pouco preocupado quando a reputação da Scientific American , construída rigorosamente ao longo de 165 anos, é usada para tratar como científicas práticas notadamente pseudocientíficas. 

Podia piorar mais ainda: dia 2/4 a Scientific American Brasil publica um tweet onde afirma que "Sobre a nota de homeopatia (abril): refere-se a um curso sério da UFV, com apoio do CNPq e envolvimento da Unesco/Fundação Banco do Brasil". De novo, argumentos de autoridade, nesse caso falsos. Trata-se de um curso de extensão oferecido na UFV (o programa é ótimo: inclui, obviamente, a "Teoria dos Miasmas"). O CNPq não apóia ou referenda o curso como não apóia curso de extensão algum. Ocorre que o coordenador do curso tem projetos aprovados pelo CNPq (o que também não significa que homeopatia seja ciência). De qualquer forma isso não seria um motivo para a Scientific American, no Brasil ou qualquer outra parte do mundo, tratar homeopatia como ciência. Não é. A homeopatia é um excelente exemplo de anti-ciência: alguém formulou algumas hipóteses e mesmo elas sendo incompatíveis com o conhecimento científico e refutadas em todos os testes bem feitos uma legião de seguidores crê no modelo e trata sua saúde a partir delas. Isso tem outro nome. 

Pode melhorar: dia 5/4 no blog da Scientific American Brasil, o editor Ulisses Capozzoli publica com o título "Erro de Avaliação" um texto em que pede desculpas publicamente aos leitores pela publicação do texto. É uma atitude muito corajosa e lúcida. Não é comum as pessoas reconhecerem um erro e pedirem desculpas em público. No entanto eu ainda fiquei um pouco preocupado com a argumentação do editor: ele afirma que se um médico homeopata abre um consultório e atende pacientes ele não pode ser acusado de desvio de conduta ou charlatanismo porque a homeopatia é legalmente reconhecida como especialidade médica no Brasil. A palavra chave dessa frase é legalmente. Nenhum sistema legal do mundo tem a capacidade de mudar a natureza. Não é porque um lobby de 300 médicos obtém de políticos (e não cientistas) o reconhecimento de homeopatia como especialidade que ela magicamente passa a ter efeito maior que o placebo. Assim como não é porque é praticada há muito tempo, ou que alguém a associe a redução de cólicas, que a acupuntura venha a ter respaldo científico. O editor local da mais prestigiosa revista de divulgação científica do mundo deveria tomar muito cuidado com o que escreve ou deixa publicar. O prestígio da revista, duramente conquistado, não deveria estar exposto a uma situação tão frágil. Talvez esse episódio possa se resolver com a publicação de um artigo rigoroso e bem embasado mostrando porque homeopatia não é ciência. Afirmar isso não significa ser careta, limitado, limitante ou com horizontes estreitos, mas simplesmente entender o que significa ciência e suas consequências sobre nossa vida. Todos têm direito de escolher como tratam de sua saúde, mas assim como a decisão do Tribunal essas escolhas infelizmente não mudam a realidade. Se alguém tiver uma doença que exige tratamento cirúrgico pode tomar os melhores medicamentos homeopáticos ou submeter-se à mais apurada acupuntura. Ainda que essa pessoa acredite que isso a salvará, suas chances de sobrevivência serão reduzidas sem uma cirurgia. Não posso terminar sem atender ao pedido do Décio e comentar a associação entre Mecânica Quântica e homeopatia feita pela autora do artigo, a bióloga Nina Ximenes, que tem passagens televisivas e arrasa no jazz e na bossa nova. Ao contrário do que provavelmente foi ensinado no curso de extensão em homeopatia, a realidade não escolhe qual a teoria que vai adotar. A homeopatia não pode escolher a física quântica em lugar da química. A realidade existe muito antes da nossa vã filosofia. Mecânica Quântica, assim como Química são invenções humanas para descrever e entender a realidade. A Mecânica Quântica descreve relativamente bem sistemas muito pequenos (inclusive as ligações químicas!) mas passa a ser menos aplicável na medida em que vai-se perdendo a coerência entre as funções de onda associadas às partículas. Portanto a frase da Nina não faz sentido. Realmente espero que a Scientific American Brasil continue fazendo o que a matriz vem fazendo muito bem há 165 anos: divulgar o pensamento científico e convidar as pessoas a entender a ciência. Seria muito triste ela passar a usar sua reputação para validar práticas pseudocientíficas. 

Agradeço aos leitores Décio Legno e Sovat por terem chamado a atenção para essa história. 

Texto postado por Leandro R. Tessler do blog Cultura Científica

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