quinta-feira, 10 de março de 2016

Encerramento das atividades do blog.


No ano de 2011 comecei a estudar para concursos públicos.

Como eu estudava quase o dia todo, meu tempo para ler, pesquisar e publicar no blog Ciência, Evolução e Divulgação (CEeD) foram diminuindo. 

No final daquele ano finalmente consegui passar em um concurso, foi difícil porque virtualmente todos os concursos para biólogo possuem apenas uma vaga. Passei em primeiro, finalmente. 

Então no ano de 2012 comecei a trabalhar. Meu tempo diminuiu drasticamente e meus interesses também. Isso explica porque minha última postagem neste blog foi em 2012.

Comecei a me dedicar, e gostar, e me aplicar na área que estou trabalhando. 

Neste momento estou no final de minhas férias, e finalmente tirei um tempo para organizar meus blogs e meu novo site. 

Criar e manter o blog CEeD foi minha primeira experiência, e que considero bem sucedida, pelo menos para mim, de espalhar um pouco de informações na internet. 

Foi uma fase extremamente gratificante, foi muito bom editar o blog, postar, observar o crescente número de visualizações, perceber como minha escrita foi melhorando (era mais horrível), principalmente no início, quando eu escrevia os textos, e ficar orgulhoso quando o blog era citado na internet, entre outras coisas.

Mas essa fase chegou ao fim. Vou continuar escrevendo no meu blog pessoal sinceridadeecoisaseria.blogspot.com/ e no meu site profissional: licenciadorambiental.com.br, espero que quem ler esta postagem me encontre por lá. O meu blog "O Biólogo", endereço: obioloco.blogspot.com nunca saiu do chão, pois eu não tive tempo de manter os três, portanto vou excluí-lo.

O blog CEeD vai continuar no ar para sempre, para me lembrar dessa fase, e quem sabe futuramente eu volte a publicar qualquer coisa interessante aqui. Porém hoje eu estou muito mais interessado em escrever sobre minha vida pessoal e produzir conteúdo de qualidade e original sobre minha área de atuação. O blog CEeD serviu de uma plataforma de testes, de aprimoramento e de vazão à necessidade de compartilhamento de informações. 

Mas quando uma fase termina começa outra. 

Abraço à todos e muito obrigado.

Ps.: Estou editando a minha lista de blogs que eu sigo e muitos estão parados há vários anos, sinto algo estranho em não saber o que aconteceu com aquelas pessoas, se desistiram, se casaram ou começaram em um novo emprego, como eu, ou se simplesmente não tiveram mais ânimo para escrever e abandonaram o blog... Por isso tive a ideia de dar uma satisfação para quem acompanha(va) o blog.

Pss.: Esqueci de comentar sobre meu blog licenciadorambientalmunicipal.blogsplot.com, que abri em 2013, o qual foi uma tentativa de escrever sobre minha área de atuação. O blog foi substituído pelo site citado acima, porém não consigo excluí-lo pois esqueci qual e-mail e senha utilizei para criá-lo; este é o problema de ter tantas senhas, contas, redes sociais, etc. 

Provavelmente irei escrever um texto no blog sinceridade a respeito disso tudo...

domingo, 24 de junho de 2012

Belo Monte, Anúncio de uma Guerra - filme

sábado, 7 de abril de 2012

PseudoScientific American Brasil

O ano era 1845. A Mecânica Quântica ainda não tinha sido inventada, homeopatia era moda e a prática da acupuntura era restrita à China. Em Nova Iorque, o inventor Rufus Porter fundou a Scientific American, "a palavra da indústria e da empresa, e o jornal das melhorias mecânicas e outras". De lá para cá a revista mudou de dono várias vezes, mas construiu, especialmente a partir de 1900, a reputação de traduzir para o público interessado os avanços da ciência e da tecnologia. E isso foi feito com extremo cuidado. A partir de 1948 os donos da revista decidiram que a maioria dos artigos deveria ser escrita pelas pessoas que fizeram o trabalho sobre o qual estão escrevendo, para que os artigos sobre novas descobertas aparecessem rapidamente, com maior exatidão e autoridade. Isso continua sendo feito até hoje. Ao longo de sua história, não menos que 140 ganhadores do prêmio Nobel escreveram para a revista, a maioria antes de receber o prêmio. Eu aprendi muito sobre ciência assinando a Scientific American na minha adolescência. Para dizer a verdade, o nível dos artigos fora da minha área de interesse era alto demais e eu tinha dificuldade para entendê-los. Mesmo assim eu tinha certeza da qualidade e do rigor de tudo o que era (é ainda) publicado ali. Hoje a Scientific American é publicada em 14 línguas e lida em 30 países. Em francês ela se chama Pour la Science. Em espanhol é Investigación y Ciencia. Aqui ela se chama Scientific American Brasil e é editada pela Duetto Editorial. Recebi com muita surpresa os comentários dos leitores Décio Legno e Solvat na postagem anterior deste blog. Segundo eles na página 17 da edição nº 119 (ano 10) da versão impressa da Scientific American Brasil, num artigo na seção "Saude" intitulado "A Eficiência Questionada da Homeopatia", de autoria de Nina Ximenes, havia a seguinte afirmação: "...a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados...". Comentarei essa pérola mais adiante. Eu estava muito ocupado nesses dias e não consegui comprar a revista para conferir. Achei que devia ser algum engano. A Scientific American não publicaria uma bobagem desse tamanho, no Brasil ou em qualquer lugar. Alguns dias depois o ótimo Never Asked Questions do impagável Roberto Takata (quem duvida leia um dos quase 65 mil tweets de sua lavra @rmtakata) apresentou uma resenha dos últimos fatos a respeito: Não somente o texto tinha sido publicado como causou furor no respeitadíssimo Science-Based Medicine e a editora chefe da Scientific American americana, Mariette DiChristina desautorizou publicamente o editor da Scientific American Brasil em seu Twitter.  

Podia piorar: dia 30/3 o editor da Scientific American Brasil, Ulisses Capozzoli publicou um texto no blog da revista chamado "Ciência e Falsa Ciência" no qual discute a recente decisão do Tribunal Federal da 1ª Região reservando aos médicos a prática da acupuntura no Brasil. No texto ele implicitamente afirma que a acupuntura tem efeitos terapêuticos. Os que como eu sempre afirmaram que espetar agulhas em pontos na pele ao longo de meridianos para corrigir o fluxo de Qi não tem base científica alguma são tratados como fundamentalistas limitados e limitantes. É como se a decisão do Tribunal mudasse a realidade e portanto estaríamos redondamente errados ao dizer que acupuntura não é ciência. Em todos os testes já feitos com algum rigor a acupuntura nunca apresentou resultado melhor que o placebo. Basta conferir na maior e mais reputada base de dados médicos do mundo, a Colaboração Cochrane. Ali há metaestudos sobre acupuntura aplicada a mais de 20 condições de saúde. O efeito em todas é comparável ao placebo. Portanto, nada impede que pessoas se submetam a tratamentos por acupuntura. No entanto, fico um pouco preocupado quando a reputação da Scientific American , construída rigorosamente ao longo de 165 anos, é usada para tratar como científicas práticas notadamente pseudocientíficas. 

Podia piorar mais ainda: dia 2/4 a Scientific American Brasil publica um tweet onde afirma que "Sobre a nota de homeopatia (abril): refere-se a um curso sério da UFV, com apoio do CNPq e envolvimento da Unesco/Fundação Banco do Brasil". De novo, argumentos de autoridade, nesse caso falsos. Trata-se de um curso de extensão oferecido na UFV (o programa é ótimo: inclui, obviamente, a "Teoria dos Miasmas"). O CNPq não apóia ou referenda o curso como não apóia curso de extensão algum. Ocorre que o coordenador do curso tem projetos aprovados pelo CNPq (o que também não significa que homeopatia seja ciência). De qualquer forma isso não seria um motivo para a Scientific American, no Brasil ou qualquer outra parte do mundo, tratar homeopatia como ciência. Não é. A homeopatia é um excelente exemplo de anti-ciência: alguém formulou algumas hipóteses e mesmo elas sendo incompatíveis com o conhecimento científico e refutadas em todos os testes bem feitos uma legião de seguidores crê no modelo e trata sua saúde a partir delas. Isso tem outro nome. 

Pode melhorar: dia 5/4 no blog da Scientific American Brasil, o editor Ulisses Capozzoli publica com o título "Erro de Avaliação" um texto em que pede desculpas publicamente aos leitores pela publicação do texto. É uma atitude muito corajosa e lúcida. Não é comum as pessoas reconhecerem um erro e pedirem desculpas em público. No entanto eu ainda fiquei um pouco preocupado com a argumentação do editor: ele afirma que se um médico homeopata abre um consultório e atende pacientes ele não pode ser acusado de desvio de conduta ou charlatanismo porque a homeopatia é legalmente reconhecida como especialidade médica no Brasil. A palavra chave dessa frase é legalmente. Nenhum sistema legal do mundo tem a capacidade de mudar a natureza. Não é porque um lobby de 300 médicos obtém de políticos (e não cientistas) o reconhecimento de homeopatia como especialidade que ela magicamente passa a ter efeito maior que o placebo. Assim como não é porque é praticada há muito tempo, ou que alguém a associe a redução de cólicas, que a acupuntura venha a ter respaldo científico. O editor local da mais prestigiosa revista de divulgação científica do mundo deveria tomar muito cuidado com o que escreve ou deixa publicar. O prestígio da revista, duramente conquistado, não deveria estar exposto a uma situação tão frágil. Talvez esse episódio possa se resolver com a publicação de um artigo rigoroso e bem embasado mostrando porque homeopatia não é ciência. Afirmar isso não significa ser careta, limitado, limitante ou com horizontes estreitos, mas simplesmente entender o que significa ciência e suas consequências sobre nossa vida. Todos têm direito de escolher como tratam de sua saúde, mas assim como a decisão do Tribunal essas escolhas infelizmente não mudam a realidade. Se alguém tiver uma doença que exige tratamento cirúrgico pode tomar os melhores medicamentos homeopáticos ou submeter-se à mais apurada acupuntura. Ainda que essa pessoa acredite que isso a salvará, suas chances de sobrevivência serão reduzidas sem uma cirurgia. Não posso terminar sem atender ao pedido do Décio e comentar a associação entre Mecânica Quântica e homeopatia feita pela autora do artigo, a bióloga Nina Ximenes, que tem passagens televisivas e arrasa no jazz e na bossa nova. Ao contrário do que provavelmente foi ensinado no curso de extensão em homeopatia, a realidade não escolhe qual a teoria que vai adotar. A homeopatia não pode escolher a física quântica em lugar da química. A realidade existe muito antes da nossa vã filosofia. Mecânica Quântica, assim como Química são invenções humanas para descrever e entender a realidade. A Mecânica Quântica descreve relativamente bem sistemas muito pequenos (inclusive as ligações químicas!) mas passa a ser menos aplicável na medida em que vai-se perdendo a coerência entre as funções de onda associadas às partículas. Portanto a frase da Nina não faz sentido. Realmente espero que a Scientific American Brasil continue fazendo o que a matriz vem fazendo muito bem há 165 anos: divulgar o pensamento científico e convidar as pessoas a entender a ciência. Seria muito triste ela passar a usar sua reputação para validar práticas pseudocientíficas. 

Agradeço aos leitores Décio Legno e Sovat por terem chamado a atenção para essa história. 

Texto postado por Leandro R. Tessler do blog Cultura Científica

sábado, 10 de março de 2012

O Kit de Detecção de Mentiras

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Belo Monte e a Questão Indígena

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O universo não precisa de deus



As idades do universo - Parte 8

PETER MOON

 Peter Moon Repórter especial de ÉPOCA vive No mundo da Lua, um espaço onde dá vazão ao seu fascínio por aventura, cultura, ciência e tecnologia.  petermoon@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
É deus! É assim mesmo como se lê no título: em letras minúsculas. Por que eu deveria escrever o substantivo “deus” com um dê maiúsculo, se para mim tal entidade não existe? Por que diferenciar o “deus” único com a sagração de uma maiúscula se, para mim, ele em nada se diferencia dos deuses do panteão greco-romano, dos santos do umbanda e do candomblé, das divindades animistas adoradas pelos antigos egípcios ou por tribos amazônicas e africanas nossas contemporâneas?
Sou ateu. Sou agnóstico. Escolha o nome que preferir. Não sou chato. Nunca procurei vender o meu peixe e convencer ninguém a abandonar as suas crenças e a sua fé. É por isso que me incomoda a gana evangelizadora dos tementes a deus. Quantas vezes eu fui obrigado a atender o interfone em pleno sábado à tarde para ouvir a voz de alguma senhora no portão de casa dizendo trazer uma mensagem de conforto ou uma palavra de fé? “Não, obrigado. Não estamos interessados. Nesta casa somos todos ateus”, costumo responder.
Intolerante, eu? Sim, eu sei, não precisaria ser grosso. Mas por acaso sou eu quem toca a campainha alheia com o firme propósito de mudar as convicções íntimas do outro? Ser grosso é um atenuante eficaz para afugentar missionários do meu portão, evitando que comecem com a sua arenga evangelizadora. Se eles crêem num mundo assombrado pelo demônio, por que eu não deveria fazer uso da sua crença no tinhoso para enxotá-los da minha soleira? 
Argumentar significaria prolongar a conversa e a perda de tempo. E o tempo é o bem mais escasso da vida. Começa-se a perdê-lo no instante em que se nasce. A morte, seguida pelo esquecimento, é o denominador comum da vida. Por que esta é uma ideia tão desconfortável?
A vida precisa de um sentido? 
O universo tem 13,7 bilhões de anos. A Via Láctea tem 13 bilhões de anos. O Sol e a Terra têm 4,6 bilhões de anos. Logo depois disso, tão logo a Terra teve condições de abrigar vida, esta evoluiu e prosperou. As evidências mais antigas de vida têm 3,8 bilhões de anos. Por quatro quintos de sua história, a vida na Terra se manteve invisível. Limitou-se ao plano bacteriano, unicelular. Seres complexos, pluricelulares, os ancestrais dos animais e das plantas, evoluíram há, talvez, 800 milhões de anos. 
A vida saiu dos mares para povoar os continentes e os céus há apenas 500 milhões de anos. A vida em terra firme é 2.500 vezes mais antiga do que o Homo sapiens. O homem anatomicamente moderno evoluiu na África há 200 mil anos. Já o homem cognitivamente moderno é bem mais recente. Segundo evidências arqueológicas, a nossa habilidade de reproduzir a natureza em pinturas rupestres, a nossa capacidade de entalhar símbolos e figuras decorativas em osso e pedra não tem mais do que 70 mil anos. 
Há 70 mil anos o cérebro humano deve ter assumido a sua capacidade plena, armando-nos com a melhor das ferramentas e a pior arma que qualquer predador desejaria: a consciência. Com ela brotaram nossos sonhos, nossas angústias, nossos desejos, nossa inconformidade com a condição humana e nossa busca por um sentido para a vida. 
Segundo os biólogos evolutivos, a fé pode ter surgido como uma invenção intelectual que fornecia sentido à vida num mundo infestado por feras e açoitado por desastres naturais. Na luta pela sobrevivência, a evolução da fé e do seu subproduto, a religião, podem ter servido para amalgamar o tecido social, congregando bandos de caçadores indefesos em aldeias e em tribos. 
Pertencer a uma tribo era uma vantagem adaptativa considerável. Os homens caçavam e guerreavam em grupo. As mulheres, também em grupo, colhiam frutas e raízes, cozinhavam, teciam, pariam e cuidavam dos filhos. Quando ocorriam estiagens prolongadas, as chances de sobrevivência eram maiores entre os membros da tribo do que entre os caçadores de bandos isolados. Em épocas de fartura, a população da tribo aumentava. A necessidade de encontrar conforto no sobrenatural, também.
Uma solução a 99%
Até o século XVI, as explicações para os mistérios da natureza e as respostas para as nossas dúvidas existenciais eram fornecidas com exclusividade pelas diversas religiões, seus dogmas e mitos. Aí, há 400 anos, veio Copérnico. Este foi seguido por Galileo, e depois por Kepler, e então por Newton. A obra destes gigantes tomou das mãos do divino o poder de explicar a natureza. 
Hoje sabemos como e quando o universo surgiu. Desvendamos os segredos da vida. Fomos à Lua. Dividimos o átomo. Sabemos que lá longe, o espaço escuro está coalhado por centenas de bilhões de galáxias, cada uma com bilhões de estrelas, em torno das quais há bilhões de planetas. 
Se a brevidade com que a vida fincou raízes na Terra é um parâmetro que pode ser generalizado, então o universo está infestado de vida – não necessariamente de vida inteligente. Novamente, se as evidências terrestres podem servir de parâmetro, a vida inteligente não seria a norma, mas uma exceção à regra. Por que a inteligência evoluiu na espécie humana há 200 mil anos e não em alguma salamandra que viveu há 270 milhões de anos, no período Permiano, quando a biosfera era tão complexa quanto a atual?
Na história da vida na Terra, a evolução da consciência é um acidente de percurso. Neste sentido, nós somos privilegiados e vivemos num momento mais do que especial. Não vivemos mais num mundo assombrado pelo demônio. Graças à ciência, o bicho homem descobriu enfim qual é o seu lugar no cosmo. Se em algum momento nos 4,5 bilhões de anos deste planeta existiram deuses, então eles somos nós.
Ainda assim, entra ano e sai ano, em qualquer região do planeta, em sociedades ricas e também nas menos desenvolvidas, toda a vez que se faz uma pesquisa para tentar aferir o grau de religiosidade de determinado país ou extrato da sociedade, o resultado é sempre o mesmo. Repetidamente, 99% dos entrevistados dizem ter alguma forma de fé ou de espiritualidade, afirmam pertencer a uma religião formal, crer num deus ou em uma entidade criadora. Eles creem na vida eterna, na vida após a morte, em reencarnações, no sobrenatural, em anjos e em demônios. 
Consistentemente, só 1% dos entrevistados afirma não ter fé nem religião. 
São os ateus, os agnósticos, dê o nome que preferir. Muito prazer.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ben Goldacre: Combatendo ciência ruim

Por que eu me recuso a debater com William Lane Craig


Autor: Richard Dawkins
Fonte: 
Guardian
Tradução: Rebeldia Metafísica 

Este ‘filósofo’ cristão é um defensor do genocídio. Eu prefiro deixar uma cadeira vazia do que dividir uma tribuna com ele.

Não se sinta envergonhado caso nunca tenha ouvido falar de William Lane Craig. Ele se autopromove como filósofo, mas nenhum dos professores de filosofia que consultei jamais ouviu seu nome. Talvez ele seja um ‘teólogo’. Já há algum tempo Craig tem sido cada vez mais importuno em seus esforços para me persuadir, constranger ou difamar num debate com ele. Eu tenho consistentemente recusado os convites, seguindo o espírito, se não a letra, de uma famosa réplica do então presidente da Royal society: “Isto ficaria muito bem no seu currículo, mas não tão bem assim no meu”.
A última investida persecutória de Craig assumiu a forma de uma série de desafios cada vez mais intimidatórios para confronta-lo em Oxford neste mês de outubro. Eu mais uma vez tive o prazer de recusar, o que foi o gatilho para provocar-lhe e em seus acólitos um frenesi de acusações de covardia através de blogs, twitters, canais do Youtube e fóruns de discussão online. A estes eu diria apenas que recuso centenas de convites mais respeitáveis todos os anos, e que já debati publicamente com um arcebispo de New York, dois arcebispos de Canterbury, vários bispos e o rabino-chefe, e estou esperando por meu iminente, sem sombra de dúvidas mais civilizado, encontro com o atual arcebispo de Canterbury.
Numa síntese de sua arrogância intimidatória, Craig agora propõe colocar uma cadeira vazia numa tribuna em Oxford na próxima semana para simbolizar minha ausência. A idéia de capitalizar sobre a reputação alheia pela conivência em dividir com outro uma tribuna dificilmente é nova. Mas o que faremos desta tentativa de transformar minha ausência numa proeza da autopromoção? Pelo bem da transparência, eu assinalaria que não é somente Oxford que não irá me ver na noite em que Craig pretente debater comigo in absentia: você também pode me ver não aparecer em Cambridge, Liverpool, Birmingham, Manchester, Edinburgh, Glasgow e, se o tempo permitir, Bristol.
Mas Craig não é apenas uma figura cômica. Ele também possui, colocando de maneira generosa, um lado negro. Vários clérigos contemporâneos sabiamente negam os horríveis genocídios ordenados por Deus no Antigo Testamento. Qualquer um que critique a sede de sangue divina é ruidosamente acusado de ignorar desonestamente o contexto histórico, e de fazer uma leitura ingênua e literal do que nunca passou de uma metáfora ou de um mito. Você procuraria bastante até encontrar um pregador moderno disposto a defender a ordem de Deus, em Deuteronomio 20: 13-15, para matar todos os homens numa cidade conquistada e confiscar as mulheres, crianças e animais como espólio de guerra. E os versículos 16 e 17 são ainda piores:
“Porém, das cidades destas nações, que o SENHOR teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida. Antes destrui-las-ás totalmente: aos heteus, e aos amorreus, e aos cananeus, e aos perizeus, e aos heveus, e aos jebuseus, como te ordenou o SENHOR teu Deus.”
Você pode dizer que tal incitação ao genocídio jamais poderia ter vindo de um Deus bom e amoroso. Qualquer bispo, vigário ou rabino decentes concordaria. Mas vejam o que Craig tem a dizer. Ele começa afirmando que os cananitas eram pervertidos e pecaminosos e portanto mereciam ser massacrados. Ele então considera a situação das crianças cananitas.
Mas tirar a vida de crianças inocentes? A terrível totalidade da destruição foi incontestavelmente à proibição da assimilação de nações pagãs. No ordenamento da destruição completa dos cananitas, o Senhor falou: ‘Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses’(Deut 7:3-4)[...] Deus sabia que se se permitisse que estas crianças cananitas vivessem, elas poderiam tramar a destruição de Israel. [...] Além do mais, se nós acreditarmos, como eu acredito, que a graça de Deus é estendida para aqueles que morreram na infância ou como pequenas crianças, a morte destas crianças era verdadeiramente sua salvação. Nós somos tão apegados à perspectiva naturalista terrena, que nós esquecemos que aqueles que morrem estão felizes por deixar esta terra pela alegria incomparável do paraíso. Então, Deus não faz nada errado ao tomar suas vidas.
Não alegue que eu retirei estas passagens revoltantes do contexto. Que contexto poderia possivelmente justifica-las?
Então o que Deus faz de errado ao comandar a destruição dos cananitas? Não os cananitas adultos, porque eles eram corruptos e mereciam o julgamento. Não as crianças, porque eles herdaram a vida eterna. Então quem é o transgressor? Ironicamente, eu penso que a maior dificuldade de todo este debate é o aparente erro que os soldados israelenses fizeram a si mesmos. Você pode imaginar que seria como ter que invadir uma casa e matar uma mulher aterrorizada e seus filhos? O efeito brutal nestes soldados israelenses são perturbadores.
Oh, os pobres soldados. Esperemos que eles tenham recebido apoio psicoterápico após esta experiência traumática. Uma resposta posterior de Craig é – se possível – ainda mais estarrecedora. Referindo-se a seu artigo anterior (acima) ele diz:
Como resultado de uma leitura mais cuidadosa do texto bíblico, cheguei à conclusão de que a ordem que Deus deu a Israel a princípio não era que eles exterminassem os cananitas, mas que os expulsassem da terra.[...] Canaã estava sendo dada a Israel, a quem Deus Deus havia retirado do Egito. Se as tribos cananitas, vendo os exércitos de Israel, tivessem simplesmente escolhido fugir, ninguém teria sido assassinado, afinal. Não havia nenhuma ordem para perseguir e abater as pessoas cananitas. É, portanto, completamente errônea a caracterização da ordem de Deus a Israel como uma ordem para cometer genocídio. Em vez disso era em primeiro lugar uma ordem para expulsar as tribos do território e ocupa-lo, Somente aqueles que permanecessem deveriam ser completamente exterminados. Não havia necessidade de que todos morressem nesta situação.*
Então, aparentemente, eram os próprios cananitas que estavam errados por não fugirem. Certo.
Você apertaria a mão de um homem capaz de escrever coisas como esta? Você subiria num palco com ele? Eu não o faria e não o farei. Mesmo se eu já não tivesse um compromisso em Londres no dia em questão, eu orgulhosamente deixaria a cadeira em Oxford eloquentemente vazia.
E se qualquer de meus colegas se encontrar intimidado ou enganado num debate com este deplorável defensor do genocídio, eu o aconselharia a levantar-se, ler em alto e bom tom as palavras de Craig citadas acima, e então deixa-lo falando não somente para uma cadeira vazia mas, esperaria-se, para um auditório se esvaziando rapidamente.

*Nota do Tradutor: Mais uma vez, é impossível resistir ao paralelo entre apologistas cristãos e negadores do Holocausto. Estes últimos, ao menos os que vomitam suas intrujices em português, costumam afirmar que a política de extermínio dos judeus levada a cabo pelo governo nazista era na verdade uma política de reassentamento dos judeus em territórios desabitados. De fato a palavra exterminar também significa, em português, “expulsar alguém de um território”. Mas o termo original alemão traduzido não possui essa acepção. E o termo hebraico original, será que possui?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Dois Prêmios Nobel?


Do blog 100nexos

Desafio aceito”. É quase o que se pode ver nesta fotografia de Marie Skłodowska Curie aos 16 anos, mais conhecida como Madame Curie, até hoje a única pessoa a ganhar dois prêmios Nobel em categorias diferentes, em física e química.
As conquistas de Marie Curie se tornam ainda mais extraordinárias quando apreciamos sua vida. Curie foi a primeira mulher a ganhar um Nobel e a se tornar titular da Universidade de Paris – porque a universidade de seu país de origem lhe negou o cargo porque era, afinal, uma mulher.
Em parceria com Pierre Curie, com quem se casou, a dupla dedicou seus esforços à ciência no estudo da radioatividade, em uma bela história que lhes rendeu o primeiro Nobel em física. Enquanto até hoje se fala em mulheres pilotando fogão, Marie Curie pilotou um caldeirão químico purificando, com a força de seus próprios braços em condições extremas, literalmente toneladas de material na descoberta do polônio e rádio.
Pierre morreria tragicamente em um acidente em 1906, mas Marie continuou seus esforços e foi reconhecida novamente em 1911 com o Nobel em química. A história já seria admirável se parasse aqui, mas Marie decidiu não patentear os processos de purificação que desenvolveu porque acreditava que o conhecimento pertencia à humanidade. Sempre viveu humildemente.
Tudo isso seria quase inacreditável, mas se torna ainda mais surpreendente porque Marie ainda foi uma mãe de duas filhas. Uma delas, Irène, em conjunto com seu genro, Frédéric, também receberia o prêmio Nobel de química em 1935, um ano após sua morte.
Mesmo em sua morte Marie Curie representou um ideal de vida. Ao descobrir a radioatividade, Curie acabou contaminada com doses letais de radiação. Suas anotações da época em que trabalhou purificando materiais são radioativos até hoje, preservados em caixas de chumbo, mas o conhecimento que avançou realmente impulsionou revoluções científicas.
Marie Curie, desafio cumprido. [via Kuriositas]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Cientista do Observatório Nacional põe fim ao Paradoxo de Kelvin sobre a Idade Termal da Terra


Em julho de 2011, o pesquisador da Coordenação de Geofísica do Observatório Nacional, Valiya Mannathal Hamza apresentou, com a colaboração de seus alunos, um artigo num encontro de Geofísica na Austrália, propondo uma solução para o paradoxo que preocupava os geofísicos há mais de um século.





Lord Kelvin, o famoso físico irlandês, apresentou no final do século XIX uma estimativa para a Idade da Terra de aproximadamente 60 milhões de anos. Para chegar a essa conclusão, ele utilizou os resultados de medidas de gradientes geotérmicos na Inglaterra. Essa estimativa, lembra Hamza, desagradou a todos, teocratas e cientistas. Para os teólogos, esse valor ultrapassava em muito suas estimativas bíblicas, em que a Terra não passaria de um pouco mais de 6 mil anos de idade. Para os geólogos e paleontólogos, era pequeno demais frente aos valores que eles tinham obtido, da ordem de bilhões de anos.

Kelvin, para sustentar sua tese, argumentava que esse valor era, inclusive, o dobro de uma estimativa que ele mesmo fez para a idade do Sol! Através de um cálculo simples, que considerava que a energia do Sol era produzida a partir da sua massa, Kelvin chegou a um valor de 30 milhões de anos para o Sistema Solar, desconsiderando, por falta de informação científica, que a fonte de energia do Sol era a fusão nuclear, fenômeno, na época, desconhecido.

Muitos contestaram os métodos usados por Kelvin, como John Perry e Arthur Holmes, ambos também cientistas de grande credibilidade. Eles argumentavam que Kelvin teria desprezado certas propriedades evidentes, entre elas a produção de calor de origem nuclear.

Kelvin, mesmo em idade avançada, soube responder a essas questões, mantendo a sua teoria incontestável. No entanto os seus resultados eram bastante divergentes daqueles obtidos por outros métodos mais diretos.

Por causa dessa discrepância, esse assunto passou a ser conhecido como o Paradoxo de Kelvin, que propunha a determinação da idade termal da Terra, isto é, determinada a partir das suas características térmicas.

Para construir o seu modelo, Kelvin considerou a variação da temperatura em função da profundidade, medidas realizadas em minas de carvão na Escócia. Para isso, ele admitiu algumas hipóteses que talvez não correspondessem ao que efetivamente ocorre no interior da Terra. Por exemplo:

1) A Terra teria evoluído termicamente a partir do estado sólido.

2) O interior da Terra era quimicamente homogêneo e semelhante à camada mais externa.

Mais tarde, Kelvin concordou com a possibilidade da coexistência com material em estado fundido (afinal, ele sabia da existência de vulcões). O problema tornou-se mais complexo. Porém, numa reavaliação do seu modelo, Kelvin chegou aos 85 milhões de anos para a idade da Terra, ainda muito longe das estimativas de seus colegas geólogos e paleontólogos (dos teólogos, nem se fala!).

Desde então, muito se aprendeu sobre a composição do interior de nosso planeta. Novos instrumentos e novos métodos permitiram aprimorar o conhecimento do material no interior da Terra e de suas propriedades físicas e químicas, inclusive térmicas. Contudo, como nos mostra Valiya Hamza, mesmo aplicando novos dados científicos, o método de Kelvin ainda nos leva à idade aproximada da Terra de dois bilhões de anos, menos da metade do valor obtido por outras técnicas. O que estaria faltando?


Bem, o "pulo do gato", melhor dizendo, o "pulo do Hamza", é considerar que, sendo o manto terrestre composto de material não homogêneo, a solidificação não ocorre numa única temperatura, como admitido nos modelos de Kelvin, mas numa faixa distribuída de temperaturas. Conseqüentemente, a liberação de calor torna-se relativamente lenta, arrastando o processo de esfriamento do planeta terrestre por períodos maiores que quatro bilhões de anos.

A modelagem deste problema torna-se ainda mais complexa e é preciso um tratamento sofisticado. Hamza e seus colaboradores consideram as medidas de várias grandezas geofísicas para deduzir a "taxa de solidificação mantélica", grandeza que faltava para completar as equações e resolver a questão.

Os resultados obtidos apontam valores para a idade termal da Terra na faixa de 4,4 á 4,6 bilhões de anos, compatível com a faixa de valores obtidos pelas diferentes técnicas geológicas, paleontológicas e astronômicas nos dias de hoje.

É o fim dos 128 anos do Paradoxo de Kelvin.

Saiba mais nos links abaixo:


A idade da Terra: O Fim do Paradoxo de Kelvin
Role of thermally buffered solidification in moulding the cooling history of the Mantle: a new look into the Kelvin problem

Com base nas notas do seminário ministrado por Valiya Hamza em 01/junho/2011, no Observatório Nacional, o texto deste artigo foi idealizado pelos pesquisadores João Luiz Kohl Moreira e Carlos Henrique Veiga, ambos da Coordenação de Astronomia e Astrofísica do Observatório Nacional.